Demorou para cair a ficha quando o Geraldo ligou avisando da morte do Maia, em 12 de julho passado...
Mário, seu sobrinho, chegou pela manhã ao apartamento em Copacabana e, estranhando que o tio não saíra do quarto até meados da tarde, encontrou-o dormindo eternamente. O corpo foi cremado em cerimônia simples, dois ou três amigos presentes. Maia se foi e nos deixou seus pássaros hitchkokianos.
“Cabeças a nos olharem de olhos fixos; arco-íris, sóis, bandeiras, barcos, anjos, beatos e beatas, pássaros, peixes, flores, cogumelos e lagartos; às vezes corações pulsantes, outras vezes bombas ameaçantes – tudo aqui se reúne para compor um orbe tanto terreno quanto sobrenatural, lírico no seu fantástico. Mas se o nacional e o arcaico lhe conferem fundamento, o extremo refinamento formal permite à pintura de Maia alçar-se à amplitude de uma contemporaneidade que extrapola fronteiras. Seus ex-votos são cidadãos do mundo. “ Roberto Pontual, in: Entre dois séculos, arte brasileira do sec. XX na coleção Gilberto Chateaubriand, Editora JB, RJ, 1987.
Em poucos dias Mário organizou, no Centro Cultural dos Correios dos Correios – RJ, uma exposição das 22 pinturas de grande formato que compõem a série Tarô. As mesmas obras foram expostas na dec. 80 na Galeria Bonino e permaneceu guardada desde então. Abalado, Mário confidenciou-me que ainda não sabe o que fazer com o acervo do tio: o apartamento está abarrotado de obras! Alguns aproveitadores chegaram a oferecer uma bagatela por cada quadro, valores irrisórios que foram recusados por Mário, num gesto gentilíssimo certamente herdado do tio.