Reproduzo abaixo o texto do cartaz, de autoria do curador, Frederico Morais.
DESLOCADOS, ONÍRICOS, COMPLETAMENTE LOUCOS
As três primeiras mostras do "Ciclo de Exposições sobre Arte no Rio de Janeiro" , que a galeria de arte. BANERJ vem desenvolvendo desde o ano passado Neoconcretismo/1959-1961, Grupo Frente/1954-1956 e I Exposição Nacional de Arte Abstrata/1953 - foram posteriormente reunidas numa única exposição com o título' 'Rio: vertente construtiva" e circularam por museus de Belo Horizonte, São Paulo, Curitiba e Porto Alegre.
Esta exposição se ocupa de uma outra vertente da arte no Rio de Janeiro, situada em pÓlo oposto, a vertente surreal. Reúne trabalhos de Cícero Dias, Ismael Nery, Guignard, Tarsila e Maria Martins.
A inclusão de Tarsila (Capivari, SP, 1886 - São Paulo, SP, 1973) pode parecer, à primeira vista, arbitrária. Paulista, participante da Semana de Arte Moderna de 1922, casada com Oswald de Andrade, Tarsila já realizara em Paris, em 1926 e 1928, duas exposições individuais, ambas com ótima repercussão crítica.
Mas escolheu o Hotel Palace, no Rio, para realizar, entre 20 e 30 de julho de 1929, sua primeira individual no Brasil. Certamente porque, mesmo não tendo desfraldado a bandeira do Modernismo, o Rio sempre foi o território da vanguarda no Brasil- ontem como hoje. E naquele final da década de 20, início dos anos 30, iniciava-se aqui uma ebulição artística, que iria transformar nossa cidade na sede do segundo Modernismo no Brasil. Ou melhor , começava aqui a sedimentação do Modernismo no Brasil. Tarsila apresentou 35 telas, datadas de 1923 a 1929, entre as quais, várias obras que, por serem antropofágicas, continham forte carga onírica, como "Urutu" e "Sono", aqui expostas.
De fato, as obras da sua fase "Pau-Brasil" (1924/25) estavammarcadaspe10 pós-cubismo de Léger. Nelas há uma estrutura quase geométrica e tanto no tema quanto no colorido são alegres, diurnas, solares. As obras da fase antropofágica, ao contrário, revelam aproximações com o Surrealismo, ao mesmo tempo que captam um Brasil telúrico, vegetal, primitivo: são obras noturnas, lunares.O que vemos, nelas, é o grande vazio, um tempo silencioso e imóvel, um Brasil pré-lógico, mitomágico, selvagem, em "comunicação direta com o solo".
Também em 1929, Alberto da Veiga Guignard (Nova Friburgo, RJ, 1896 Belo Horizonte, MG, 1962), retorna ao Brasil após uma ausência de 22 anos, período em que estudou em Munique, Paris e Florença. As obras de seu período inicial brasileiro (1929 - 1933), à parte as paisagens e retratos, estão carregadas de uma estranha e densa poesia, que resulta não só do tema, como também do tratamento dado à cor e à matéria. Mário de Andrade, comentando a participação de Guignard no " Salão Revolucionário" de 1931, diz que ele "parece hesitar ainda entre a pintura construída e a pintura... destruída. Povoa-se de fantasmas e fluidez, A sua pincelada parece ter remorsos de abandonar a plasticidade gorda do óleo e se esgueira num fru-fru de quase crepe-da-china. É encantador".
Cícero Dias (Recife, PE, 1908) realiza sua primeira individual no Rio, em 1927. Sua temática nesse período dito surrealista (1927-1932) é uma espécie de lirismo ecológico e panteísta, que se manifesta na forma de um desenho aquarelado e transparente, francamente poético. Ou como quer Janira Fainer Bastos, suas aquarelas são "evocações oníricas", pois que nelas, a fantasia e a realidade (nordestina) se fundem.
Ismael Nery (Belém, PA, 1900 - Rio de Janeiro, RJ, 1934) em sua segunda viagem à Europa, em 1927, travou contato com os pintores surrealistas, especialmente com Chagall, que o recebeu em sua casa. A influência chagalliana, visível também em Cícero Dias, é aceita pelo próprio Nery quando, num trabalho de 1927, escreve "Como num desenho de Chagall".
Murilo Mendes considerava-o antes de tudo um poeta, além de pensador, e Mário de Andrade escreveu que' 'seguindo as obras dele, a gente tem a impressão de que os problemas se enunciam nuns quadros, e são desenvolvidos noutros para terminar noutros".
Ou seja, para lsmael Nery o desenho era, antes de tudo, um artesanato mental, suas obras eram a explicitação de um sistema filosófico - o Essencialismo, por ele criado - uma forma de raciocínio visual. Este caráter intelectual do desenho de Nery é facilmente perceptível no fato de que ele nunca situa a figura humana (o tema mais constante de sua indagação: corpos que se interpenetram, que se fundem, que migram de um para outro, assim como o detalhe da mão) no tempo e no espaço, isto é, foge a toda historicidade. O social quase nunca aparece em sua obra.
Embaixatriz, Maria Martins (Campanha, MG, 1900 - Rio de Janeiro, RJ, 1973) realizou seus estudos de escultura e desenvolveu o essencial de sua obra e de sua carreira no exterior, especialmente Paris e nos Estados Unidos. Amiga íntima de Mondrian e Duchamp, ela beneficiou -se, na década de 40, da presença em Nova York de um grupo de notáveis artistas e teóricos de arte europeus, especialmente aqueles vinculados ao Surrealismo, todos exercendo notável influência sobre a arte norte-americana. Da importância da escultura de Maria Martins e de seus vínculos com o Surrealismo internacional, falam as suas participações em diversas exposições nos Estados Unidos e em Paris e, sobretudo, os textos de Amedée Ozenfant, Benjamin Peret, Christian Zervos e André Breton entre outros. Este último, em 1947, disse que, face às suas esculturas, ele se via como que diante do sagrado, pois Maria Martins "soube captar, mais do que ninguém, a própria fonte primitiva". Maria Martins explorou, de início, temas ligados às lendas amazônicas, entre elas, a da Cobra Grande, que lhe permitiram um tratamento exuberante e barroco da forma e mergulhos no inconsciente. O caráter ao mesmo tempo mágico e telúrico de seus temas, a mescla de sofisticação intelectual e primitivismo, casavam-se muito bem com o Surrealismo, movimento que sempre contou com o apoio dos poetas e literatos. E a preocupação de Maria Martins foi sempre mais poética que formalista, para ela, como disse num depoimento de 1956, a criação de uma obra de arte é o resultado de um ato de magia, de uma afirmação de fé, uma vertigem maravilhosa.
O visitante saberá fazer as ligações entre as várias obras aqui expostas, entre Tarsila e Maria Martins, entre Cícero e Nery, entre este e Guignard. São todos parecidos e dissemelhantes, todos estão dentro e fora do Surrealismo, daí que talvez fosse melhor falar não de uma vertente, mas de aproximações ou achegas ao Surrealismo. Mas é a memória, transformada em sonho, coisa onírica, o verdadeiro elo de ligação entre todos os expositores. Cícero, morando no Rio, pensava no Recife e via o mundo começando ali. Maria Martins, internacionalíssima, sonhava sonhos amazônicos (apesar de nunca ter estado no Amazonas), era puro instinto num meio sofisticado e intelectual. Tarsila, a "caipirinha vestida por Poiret", quando pintou em Paris "A negra", primeira obra antropofágica, sonhava com um Brasil primitivo, enorme, continental. Guignard, ainda ligado mentalmente à Europa, nostálgico de sua arte, de seu altar de musas, de seus salões rococós e cabarés freqüentados por Toulouse-Lautrec, receia redescobrir o país que é seu, mas que ele àquele momento vê com olhos estrangeiros. Nery, personalidade complexa, contraditória, pôs no papel e na tela todos os problemas que o atormentavam, fossem eles intelectuais, religiosos, sexuais. São todos um pouco deslocados, descentrados, sonhando de olhos abertos, longe do social, alheios à crise política e econômica, são "completamente loucos" como comenta Mário de Andrade a propósito de Cícero e Nery, no "Salão revolucionário", citando uma expressão popular.



