As idéias abaixo são conflitantes com texto de
Arnaldo Jabor publicado aqui neste blog na página 4. Vamos
ao debate!
A ARTE TESTEMUNHA A
VIOLÊNCIA DO MUNDO
Nas últimas décadas, os recursos técnicos
de que dispõe a humanidade multiplicaram-se de modo
acelerado. Paradoxalmente, se aprofundou o sentimento da
impotência humana diante do curso dos acontecimentos.
É impossível delinear o cenário da arte
contemporânea, por vários motivos. O primeiro, o mais
banal, é que tudo que é contemporâneo foge das
definições panorâmicas, pelo simples motivo de
que falta distanciamento para tanto.
O segundo é que o território da arte
contemporânea foi extraordinariamente ampliado, a exemplo das
bienais, que se multiplicaram por cem nas duas últimas
décadas. E, por fim, o que foi chamado de pós-moderno
acabou com as normas que regiam, bem ou mal, a arte
moderna.
Não há mais, "tendência". Esse é o
cenário da arte contemporânea. A impressão que
sente quem considere os períodos mais ou menos recentes da
atividade artística, e que viaje um pouco (nem que seja
apenas pela internet), é de que nunca houve tanta
diversidade, nem tanta liberdade de invenção.
Alguns observadores competentes não cansam de repetir
que a vida artística se "globalizou" como o restante
da· atividade econômica e que se vê a mesma
coisa em todo lugar. Sim, com certeza, mas para quem se limita em
olhar nas instituições dominantes as obras que
subjugaram o mercado.
A arte, ao longo do século 20, produziu obras às
quais o antigo conceito de beleza não podia mais ser
aplicado. Há muito tempo, a arte
renunciou a encantar, a seduzir, a decorar, a agradar. Um
dos desdobramentos desta evolução está na
violência com a qual as obras mais memoráveis do nosso
tempo vêm jogar na nossa cara o testemunho da violência
do mundo. Testemunho inútil, já que nada podemos
fazer? Testemunho útil, sim, pois, globalmente nos tornamos
menos ignorantes, menos broncos.
JeanGalard - Jean Galard é professor e diretor
cultural do Museu do Louvre, em Paris. Participou de um recente
seminário sobre arte contemporânea realizado no Museu
Vale do Rio Doce, em Vila Velha (ES).
'Topos', de autoria da artista carioca Suzana Queiroga